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O livro como prisma da alma

Atualizado: 2 de out. de 2019


"A guardiã Shanti" de Júlia Serrano @julialserrano

Nossas almas, para mim, são metade luz, metade sombra. Perguntaram-me, certa vez, se nossa parte luminosa era como o sol. Respondi que acreditava ser mais parecida com um vagalume, que acende e se apaga constantemente, mas que, mesmo assim, pode iluminar a escuridão da noite.

Nossa luz, por enquanto, ainda é volúvel. Por isso preferimos viver em cima de pontes, sem saber ao certo se vamos para frente ou para trás, se pegamos o caminho da direita ou da esquerda, tendo sempre medo de cair em um rio de águas turbulentas ou de, pegando a estrada errada, perdemo-nos em uma floresta obscura.

Ficando assim no meio da ponte, tenho a impressão, por vezes, que vivemos meias-verdades, apenas uma ínfima parcela do que poderíamos ser. Acredito, de fato, que podemos ser mais, conhecer mais, praticar verdadeiramente aquilo que chamamos “o bem”. Creio que ele não tem cor. Nunca teve! Mas acho que o que provém dele se espalha em infinitos tons, que podem ser revelados através dos livros.

Muitos livros, na minha opinião, também são pretos e brancos como nossas almas: páginas brancas onde deslizam letras pretas. Entretanto, nem todos possuem somente duas cores. Acho muito interessante o pensamento do antropólogo francês René Girard, em sua obra Mentira Romântica e Verdade Romanesca, quando fala da diferença entre os livros que apenas “refletem” a realidade e os livros que a “revelam”.

Para René Girard, os livros que “refletem” a realidade contam somente histórias, mas não modificam seus leitores. Os outros, os que a “revelam”, podem transformá-los profundamente. Gosto de dizer, então, que os primeiros são pretos e brancos. Os segundos, contudo, conseguem atingir muitas outras matizes de cores, tornando-se prismas de nossas almas. Eles fazem com que os leitores acessem verdades mais inteiras, realidades maiores, onde a tolerância age sem tanta dificuldade.

Os livros “reveladores” não mostram apenas o lado luminoso e sombrio da alma humana, mas também o caminho para se sair dessa dualidade. Esse caminho está, com frequência, nas entrelinhas do que lemos e absorvemos de alguns livros que são como filetes de água entrando, devagar, em um terreno rachado pela aridez do solo.


Nossa cor ainda é preta e branca, assim como os livros que refletem só um único lado da natureza humana. Talvez nosso outro lado não seja colorido nem tão brilhante como o sol, mas com certeza cintila muito, lembrando-nos que podemos ser mais que vagalumes, do que meio-humanos.


Podemos expressar nossa humanidade com mais inteireza, através do que ela permite de melhor e mais nobre, através do respeito às inúmeras diferenças existentes entre nós. Em muitos pontos não somos iguais, mas somos todos pretos e brancos. Aí está nossa semelhança humana.


Ao compreendermos que somos todos pretos e brancos, de certo modo todos imperfeitos, em acabamento, em andamento e andarilhos, não faz absolutamente nenhum sentido algumas barreiras que criamos. Elas simplesmente desabam por terra. No lugar, construímos castelos de pedras firmes, onde antes eram de areia. Cada tijolo nos lembrando que devemos fazer diferente. O cimento deve ser outro, mais maleável. E a construção propriamente dita, menos barulhenta.


Deve ser silenciosa...aquele silêncio das boas leituras, que vai nos transformando aos poucos como os livros reveladores. Só assim, ao meu ver, seremos como prismas, expandindo uma luminosidade mais refinada através de tudo, gradação de cores que nem imaginávamos que possuíamos.


Simone Aubin

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