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A felicidade que buscamos

Atualizado: 19 de jun. de 2020


Pintura de Sérgio Pires

Quando procuramos um livro, desejamos muitas coisas, consideradas mais nobres ou menos nobres: divertimento, aprofundamento do ser, alimento para o intelecto etc. Abrimos página por página ansiosos por algo que, na maioria das vezes, nem mesmo conseguimos identificar conscientemente. Tenho, no entanto, a convicção de que, no fundo, viramos cada folha à procura de “felicidade”. Não apenas uma felicidade momentânea, mas uma duradoura.


Tentei expressar, por meio da saga “Feiticeiros de Acbar”, alguns aspectos dessa busca humana pela felicidade, que acredito ser um anseio de todos, indistintamente. Ela pode ser percebida, no primeiro livro, através das 5 principais linhagens de feiticeiros daquele mundo: governantes, guerreiros, guardiões, curadores e profetas. Cada uma delas reflete uma dimensão diferente e necessária ao sentimento de bem-estar.


A linhagem dos governantes, por exemplo, manifesta características fundamentais para se atingir esse objetivo: determinação, força de vontade, senso de justiça e altruísmo. Quando escrevi sobre ela, tinha em mente que só se avança através de uma força motriz, a “vontade do ser”, algo que os governantes de Acbar têm em abundância.


Nesse mundo, os governantes são constantemente protegidos pelos guerreiros, feiticeiros que encarnam a coragem, a força, a concentração. Não se entregam ao medo. De fato, acredito que para cumprirmos nossas metas mais profundas são necessárias não apenas a determinação dos governantes, mas também a coragem e o senso de fidelidade dos guerreiros. Mas fidelidade a quê? Na obra, a fidelidade às “forças da luz”, a tudo o que permite ao ser humano revelar sua alegria. Em oposição a estas, as “forças das trevas” proporcionam uma felicidade momentânea, ou melhor, uma ilusão de contentamento, pois são regidas por nossos temores e se alimentam deles. Em resumo, as trevas são um estado onde ainda existem o medo, a ilusão, o rancor e a revolta... onde existe a dor. A luz é, simbolicamente, o que permite ir além dela. E quando esta não mais existe, a felicidade se instala com relativa facilidade: a revolta se acalma, os olhos veem além dos problemas, as mágoas perdem o sentido e o medo se dilui, como se nunca houvesse existido.


Contudo, para se combater o medo e garantir um caminhar seguro em direção à felicidade, precisamos nos proteger daquilo que poderia bloquear nossas metas ou nos desviar destas. Dessa ideia surgiu, confesso que de forma inconsciente, a linhagem dos guardiões, os “protetores de Acbar”, escudos vivos e luminosos contra toda vontade mal direcionada e desequilibrada. Essa linhagem protege os territórios da luz. Mas o que representam, simbolicamente, esses territórios? A meu ver, eles podem ser muitas coisas: um lugar tanto “externo” quanto “interno” a nós mesmos. Assim, sempre no intuito de ir mais avante, necessitamos da determinação dos governantes, da coragem dos guerreiros e da vigilância dos guardiões, constantemente atentos a seus próprios pensamentos, ações e sentimentos.


Sinto que devemos cuidar com carinho de nossas emoções. Muitos sábios disseram que se amadurecêssemos nesse sentido poderíamos realizar coisas extraordinárias! Bastaria apenas ter mais cuidado com o que acontece dentro de nós e mais respeito com o que ocorre dentro dos outros. Isso acarretaria saúde e bem-estar, o que nos permitiria atuar no mundo de forma mais útil e positiva.


A reflexão sobre as emoções fez surgir a “linhagem dos curadores”, que são em Acbar os representantes da cura tanto do corpo quanto da alma. Só podemos ser verdadeiramente felizes se tivermos saúde física, mental, emocional e espiritual, dizem os especialistas. Equilibrar isso tudo dá trabalho, mas o prêmio – a felicidade - está à altura de nossos esforços.


Os curadores de Acbar agem pelo amor e por meio dele. Por isso, cultivam esse sentimento paralelamente ao de gratidão. Sabem que são apenas um “canal da vida” que leva bem-estar a todos. Os curadores representam também o perdão de nós e dos outros, além da tranquilidade que devemos cultivar diante das dificuldades.


As 4 linhagens descritas até agora (governantes, guerreiros, guardiões e curadores) são guiadas por uma quinta: a dos profetas; sábios e serenos, são como nossos professores e mestres, indicando o melhor caminho a seguir, aquele que nos permitirá aprender e crescer. Na saga, eles ouvem a voz da vida e a transmitem ao mundo, porque essa voz quer a felicidade de todos. Não estamos neste mundo, considerado difícil, sozinhos e abandonados. Sempre existirá alguém que caminhou mais do que nós, com mais experiência e conhecimento, boa-vontade para nos ensinar e nos ver progredir. Mesmo com a ameaça do “caos” que rodeia os feiticeiros, os profetas revelam que existem ferramentas concretas para sair dele. Para abordá-las, frequentemente utilizei a linguagem metafórica e simbólica das “profecias”, por acreditar que estas, muitas vezes, falam diretamente à alma.


No decorrer da saga, outras linhagens de feiticeiros surgirão: a dos instrutores, dos cientistas, dos artistas etc. Todas se aprimoram constantemente e têm uma função importante para o equilíbrio de Acbar e de seus habitantes: buscam a felicidade e esforçam-se para preservá-la. Mas essa busca é uma temática ampla e profunda, sendo impossível descrevê-la em poucas linhas.


Expus aqui, sucintamente, a relação entre a felicidade e a saga Feiticeiros de Acbar, cujo processo de redação me mostrou a responsabilidade que têm os escritores perante os leitores. De fato, estes podem se saciar ou ressecar diante do que leem. Queria que essa saga transbordasse a abundância que nos cerca, mas tenho consciência dos limites das palavras para expressá-la. Queria que as linhagens de Acbar transmitissem esperança aos leitores, mostrando-lhes que entre eles e a felicidade não existem barreiras intransponíveis.


Simone Aubin

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